quarta-feira, 1 de abril de 2020

Encha o tanque dela primeiro


foto por George Natsioulis

No verão de 1975, eu acabara de me formar na faculdade, no sul da Califórnia, e ganhei um Ford Capri 1968 como presente de formatura. Consegui meu primeiro emprego em Los Angeles. Numa noite de domingo, me considerando uma adulta muito independente, saí da casa do meu tio em South Laguna depois de uma visita sem lhe confessar que tinha menos de um oitavo de tanque de gasolina e nenhum dinheiro para abastecer a caminho de casa. Entrei na Pacific Coast Highway e observei a agulha enquanto eu seguia para o norte. Quando cheguei ao fim de reserva, parei num posto de gasolina. Não havia autosserviço naquela época, nem cartões de crédito, nem caixas eletrônicos.

Implorei ao frentista: eu poderia lhe dar um cheque (mas o posto não aceitava cheques) ou dormir no meu carro e, na manhã seguinte, andar até uma cidade que tivesse uma agência do meu banco.

Enquanto ele me informava que eu até poderia dormir no carro, mas que ele chamaria a polícia para me prender, uma caminhonete parou junto à outra bomba. O motorista - um homem magro na meia-idade - ouviu o finzinho do meu apelo malsucedido. Quando o frentista foi atendê-lo, ele acenou com a cabeça na minha direção.

- Encha o dela primeiro - disse.

- Tem certeza? - perguntei. Meu peito se encheu de esperança. - Ah, obrigada. Mas por favor, só preciso de dois dólares de combustível. Isso basta para eu chegar à minha casa.

- Encha - repetiu ele ao frentista. Depois, para mim: - Algum dia você fará isso por alguém.

Vivo procurando uma pobre moça rezando para não passar a noite na estrada. Enquanto isso, e caso ela nunca apareça, busco outros atos de gentileza aleatória.

Aquele motorista está sempre na bomba a alguns metros de distância, instruindo o frentista a encher meu tanque primeiro.

foto por Leland Foster