por Jacquelin Gorman
Quando era capelã residente no Centro Médico da Universidade da Califórnia, campus de Los Angeles (UCLA), eu entrava na vida de estranhos no pior momento possível. Naquelas horas sombrias em que havia um paciente morrendo, eu aparecia, uma estranha, um rosto, uma voz, um toque desconhecidos. No começo, tinha pavor daquelas visitas e me via como uma pobre substituta da intimidade confortadora da família e dos amigos. Sentia-me incapaz de ajudar.
Então recebi uma importante lição espiritual de uma dessas pessoas desconhecidas e nunca mais vi a vida da mesma forma. Ela morria de insuficiência renal e a única esperança seria um transplante. Esperei com ela, rezei com ela, finalmente, disse com um suspiro:
- Gostaria de poder fazer mais do que isso.
- Você pode - disse ela. - Você pode fazer muito mais.
No seu leito de morte, prometi ser uma doadora viva de rim, assim que o tempo e as circunstâncias permitissem.
Uma década depois, quando meus filhos cresceram, cumpri a promessa. Voltei à UCLA e ofereci um rim a quem precisasse. “Um desconhecido?”, perguntavam todos. “Você faria isso por um desconhecido?”.
Nunca entendi porque o mesmo ato fazia sentido caso eu ajudasse alguém conhecido mas fosse inacreditável na hora de ajudar quem eu nunca vira.
- O que sabe sobre essa pessoa que vai receber seu rim? - perguntavam.
- Que vai morrer caso não o receba - respondia.
Era tudo que eu precisava saber.
Em 5 de novembro de 2010, meu rim fez sua primeira viagem sem mim, aninhado na cabine do piloto, no assento da primeira fila.
Passei menos de 24 horas no hospital, e a dor pós-cirurgia era docemente familiar: a mesma que eu sentira quando tive meus filhos de cesariana. O rim foi tirado por aquela cicatriz desbotada e me concedeu mais uma vez o privilégio de dar a vida com quase 60 anos!
Conheci o homem que recebeu meu rim muitos meses depois, num dia claro e ensolarado da Califórnia, quando ele já estava em condições de viajar. Embora nunca tivéssemos trocado fotos, nos reconhecemos imediatamente no restaurante lotado. Fui na direção dos seus braços abertos, nós dois rindo e chorando, ao mesmo tempo que nos ligávamos com a vida: a minha vida, a vida dele, toda vida.
Levarei comigo aquele sentimento a cada instante que continuar respirando, sabendo que, nas horas mais difíceis, me sustentará essa dádiva inestimável que uma desconhecida me deu em seus últimos momentos sobre a Terra.

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